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Quando o SBT chegou aos meus domingos depressivos

Nos anos 80, 90, morar no interior era isso: você dependia das visitas da turminha que vinha da capital, ou então esperava o verão chegar, pra ter algum contato com as novidades da cidade grande. Eram eles que traziam o que tava bombando lá no mundo novo. A gente só recebia.

A TV até passava as propagandas dos brinquedos novos, das revistas interativas, sabe? Mas no interior nem sempre dava pra sintonizar outro canal que não fosse a Globo. E domingo na Globo era um tédio.

Lembro até hoje daquele domingo de Páscoa em que estreou o programa sem fim do Faustão. Antes do Fantástico tinha Os Trapalhões (esse até era engraçado), mas depois vinha aquela revista eletrônica semanal e eu ficava com medo das reportagens. Aquela abertura, com as mulheres saindo da água, me dava a sensação de que o mundo ia acabar. Sei-lá, era estranho.

Então, num sábado de manhã, eu tava na casa dos meus primos Badi e Toco, em Torres, quando chegou o cara pra instalar a antena parabólica. Ele subiu no telhado, montou aquela estrutura gigante, e eu e meus primos ali embaixo fazendo os comentários mais esdrúxulos possíveis sobre o equipamento. Aí, do nada, a televisão tomou um upgrade nível extreme: saiu de só a Globo pra pegar SBT, Band, Record, Gazeta e mais uma infinidade de canais. QUE LOUCURA!

E acho que foi ali, mesmo sem saber explicar direito, que eu entendi uma coisa: uma antena podia mudar o tamanho de uma casa. Bastava apontar aquele troço pro céu e, de repente, o mundo inteiro cabia dentro da sala.

Antena parabólica no telhado

Meus domingos costumavam ser arrastados. Não tinha churrasco (isso eu já contei neste post). A gente quase não saía. E eu lembro de ficar ali, brincando no tapete com um par de Hot Wheels, e o tempo simplesmente não passava. Não passava até dar 19h de Brasília, quando começava Os Trapalhões.

Aquela tarde em Torres ficou martelando na minha cabeça. Lá era a casa dos primos; em casa, a gente ainda só tinha a Globo de sempre. Até que um dia começou a obra pra fazer a sapata da nossa própria parabólica. Bah, que angústia, que ansiedade, meu Deus! Lembro que demorou vários dias pra concretar aquela estrutura. Depois veio o Marquinhos instalar o equipamento, e, claro, botaram num cômodo só da casa. E QUE SURPRESA! Agora tinha Chaves! Agora tinha o programa Cadeia, em que o Ratinho mostrava até gente morta na TV! Mas também tinha Glub Glub, na TV Cultura. Um mundo novo se abrindo pra minha pequena família.

Do nada o mundo mudou. Sábado tinha o Show de Variedades no SBT. Mas eu não podia assistir, porque tinha que ir à missa (mandado pela minha mãe, óbvio). Domingo de manhã tinha o Nações Unidas, depois o Passa ou Repassa (eu sonhava em ir participar), o Domingo Legal e, a cereja do bolo lá no fim da noite: TOPA TUDO POR DINHEIRO!

E aqui duas coisas curiosas.

Eu sempre gostei de música. No Domingo Legal tinha aquele quadro das mulheres com os corpos pintados. E eu gostava em dose dupla: além das mulheres, tocava de fundo Go West, do Pet Shop Boys. Demorei anos pra descobrir o nome da música. Lembro até de ter mandado um e-mail perguntando que sonzeira era aquela. Nunca responderam, claro.

E eu amava o Topa Tudo Por Dinheiro. Teve uma noite em que minha mãe me chamou na janela do quarto dela pra ver uma cena inusitada: um vizinho tinha tentado atravessar uma pontezinha de pedestres com o Chevette verde dele. Tinha um monte de gente tentando ajudar o cara a descer e a tirar o carro dali, e eu… eu larguei mão da curiosidade pra voltar a assistir o programa. Tava lá, todo faceiro!

Fora isso, lembro que dava pra acompanhar um pouco de NBA na Band (ah, e depois tinha o Sexta Sexy!). E vagamente lembro de pegar MTV, mas não tenho certeza. Esse canal eu só fui acompanhar de verdade quando me mudei pra Porto Alegre.

O SBT salvou meus domingos. Não resolveu a melancolia toda, claro. Domingo continuou tendo aquele cheiro de fim de festa, de tarefa esquecida, de segunda-feira chegando sem pedir licença. Mas agora tinha alguma coisa me esperando.

Só ficava triste mesmo quando a TV FECHAVA. Isso, no fim da noite vinha uma mensagem de Jesus Cristo e a televisão entrava em manutenção. Era como se alguém apagasse a janela e devolvesse a casa pro silêncio.

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Salve!