Herança
Na casa da minha mãe, música não era fundo. Era evento.
Tinha um ritual: ela abria a capa do disco com cuidado, tirava o vinil pela borda, sem encostar os dedos nos sulcos, passava a flanela e colocava no prato. Depois aquele gesto de precisão cirúrgica de pousar a agulha. Um estalo, um chiado, e a sala inteira mudava de clima.
Quando era dia de Raul Seixas, eu sabia que era dia importante.
E quando tocava Gita, eu parava o que estivesse fazendo. Tem alguma coisa naquela música que prende uma criança: ela começa com uma pergunta. Alguém querendo saber quem é, afinal, aquela figura calada. E o resto da música é a resposta: uma sequência de declarações, uma atrás da outra, cada uma dizendo “eu sou isso, eu sou aquilo”. Eu não entendia metade. Mas entendia que alguém estava se apresentando ao mundo, e que isso era grandioso.
Minha mãe cantava junto. Eu olhava o disco girar e tentava entender como aquele negócio preto fazia a voz do Raul sair da caixa.
Muitos anos depois, virei programador. E um dia, escrevendo uma classe em Python, a ficha caiu: Gita é um objeto se descrevendo.
Pensa comigo. A música inteira é um self respondendo perguntas. “Quem é você?” é um método. Cada “eu sou” é um atributo. A estrutura é exatamente o que a gente faz quando define uma classe: declarar o que aquela coisa é, o que ela sabe fazer, como ela responde quando o mundo pergunta.
Raul Seixas e Paulo Coelho escreveram, em 1974, a definição de classe mais bonita que eu conheço. Sem saber, claro. Ou sabendo, com aqueles dois nunca dá pra ter certeza.
Então fiz o que qualquer programador faria com uma epifania dessas: abri o editor e implementei. class Gita em Python, orientado a objetos, com direito a herança, propriedades e métodos que respondem às perguntas da letra. Um exercício inútil pelos padrões do mercado e completamente necessário pelos meus.
Porque no fim é disso que se trata. Herança, em orientação a objetos, é quando uma classe recebe de outra os seus atributos e comportamentos. A minha veio da sala da minha mãe, num disco girando a 33 rotações por minuto.
class Cicero(Mae):, e dentro, entre outras coisas, o gosto por Raul Seixas.
Se você quiser ver essa bobagem maravilhosa funcionando, o código está aqui: https://github.com/ironworld/raul-seixas-gita. Clona, roda, instancia a sua própria Gita. E depois me conta qual música da tua infância merecia virar código.
Salve!