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Do Fogo à Fumaça

O Tio Enor aparecia na casa da minha mãe com a família e com uma certeza: ia ter churrasco bom. Ele é colorado como eu, pai do meu primo Mateus (e Filipe) e tinha o dom de transformar qualquer domingo num evento. Fazia de tudo que a gente gostava, mas o coração de frango era a especialidade: servido ao ponto, espetacular, o tipo de coisa que some do espeto antes de você perceber.

O que mais me ficou, além da comida, foi o riso dele. O Tio Enor tem uma dessas risadas que chegam antes da piada. Uma história eu carrego até hoje: Eu frequentava uma escolinha de futebol. Cresci muito rápido, era bem maior que as outras crianças, cabeça e tudo mais. Tinha acabado o churrasco e ele foi me ver jogar. Lá estava eu, camisa amarela número 9. Joguei mal (como sempre). Depois do jogo ele veio rindo: “um cara atrás de mim ficava gritando aquele número 9 é uma múmia!”. Tio Enor sempre lembra dessa história e reforça que se fosse jogar futebol teria que ser naquele time que veste azul. Valeu, Tio!

Aqueles churrascos eram aula sem parecer aula. Eu ficava do lado, olhando, fazendo perguntas. Ele respondia com paciência, sem fazer cerimônia. E foi assim, nesses domingos, que aprendi o que precisava saber sobre colocar fogo no carvão, temperar a carne e receber gente bem.

Com o tempo aprendi a fazer meu próprio churrasco. Mas uma coisa sempre me gerou curiosidade: por que alguém precisaria de um tonel preto enorme, com termômetro na tampa, pra fazer um churrasco? E por que demorava o dia inteiro? Quando experimentei pela primeira vez, não foi amor à primeira vista. Mas alguma coisa ficou.

Comprei o smoker numa combinação de curiosidade e impulsividade que não é exatamente nova pra mim. Pesquisei, assisti vídeos, li sobre técnicas. E quando o equipamento chegou, entendi: isso não é uma variação do churrasco. É outro esporte.

No churrasco gaúcho, você domina o fogo. Aprende a ler a brasa, a sentir o calor na palma da mão, a decidir na intuição quando é hora de virar. No BBQ americano, você domina números. A temperatura interna da carne. A temperatura do pit. O tempo de fumaça antes de embrulhar. Tenho um termômetro no smoker e outro que monitoro pelo celular. Sim, pelo celular, enquanto a carne passa horas lá dentro.

Trocar intuição por dados não é fácil pra quem cresceu achando que churrasco é instinto. Mas é exatamente isso que o BBQ exige. Baixo e lento. Paciência e matemática.

Na minha primeira vez com o barril, preparei um dry rub: pimenta-do-reino, páprica, sal, açúcar mascavo, cominho. Apliquei na costela de porco e coloquei no smoker animado. Algumas horas depois, o cheiro da fumaça tomou conta de tudo. Estava confiante. Quando fui verificar a temperatura interna, a sonda disse o que eu não queria ouvir: baixa demais. Tinha passado horas me achando, e a costela precisava de mais tempo. Primeira lição: o cheiro te engana. O termômetro não.

No último domingo, fui mais fundo. Cinco ossos de costela dianteira bovina, um brisket e uma linguiça suína. Seis horas de fogo. Quando enfiei o termômetro no brisket e a sonda entrou sem resistência. Como manteiga: que é o que todo mundo fala e você não acredita até sentir. Entendi o que estava sendo perseguido aqui. Não era só sabor. Era a satisfação de que o tempo fez o trabalho que o fogo nunca conseguiria. De quebra, saiu o primeiro hamburguer defumado da história da minha churrasqueira. Ficou PHODA!

No casamento do Mateus, reencontrei o Tio Enor depois de um tempo. Ele e o Tio Rogério estavam pilotando a churrasqueira da festa, do jeito que sempre foi. Conversamos bastante. Do lado, meu filho Francisco ficava com os olhos fixos naquela churrasqueira enorme cheia de proteínas. O mesmo olhar que eu devia ter quando era pequeno.

Agora quero retribuir. Quero chamar o Tio Enor aqui em casa e fazer um BBQ americano pra ele. Ele me ensinou, sem fazer cerimônia, o que é receber bem alguém com uma boa carne. Agora é minha vez, só que com um tonel preto, um termômetro no celular, e doze horas de antecedência.

Do fogo à fumaça. O churrasco continua.

Salve!