Capão da Canoa não é pra amadores
Se eu pudesse agradecer ao universo por uma característica minha, certamente seria por essa cabeça gorda e os muitos terabytes de espaço para guardar curiosidades e bobagens aleatórias. Mesmo que, depois que virei pai, eu tenha ganhado alguns bad blocks, ainda guardo boa parte das lembranças que importam. E muitas delas são sobre a melhor cidade do mundo, que, óbvio, sempre será Capão da Canoa.
Voltemos aos anos 80. Naquela época, o capeta costumava participar de festas no Ginásio Otto Birlem. Ele deixava mensagens nos espelhos, ele tentou matar uma moça… Eram diversas histórias depois dos bailes e, numa época sem internet pra checar nada, tudo corria de boca em boca. Óbvio que eu morria de medo! Deus me livre passar perto daquele ginásio à noite sozinho!
O capeta nunca saiu no jornal. Mas anos depois, outros causos de Capão saíram. E como aprendi a desconfiar do boca a boca, fui atrás de cada um. Então aqui vão alguns, com prova.
A Câmara que precisou de um bafômetro
Nos anos 90 era raro ver emissora de TV cobrindo alguma coisa no litoral. A estrada até a capital parecia mais longa, e só no verão a gente via as “viaturas” pela cidade. Quando eu avistava uma, confesso que ficava imaginando o motivo da reportagem. Seria uma baleia avistada na praia? Um novo golpista na praça? Ou quem sabe o estouro de um cassino com alguns políticos dentro!? Ahhh, eu não perderia o próximo jornal por nada nesse mundo.
Eu lembro daquela quarta-feira como se fosse hoje. Depois do almoço, eu, meu Tio Roberto e o ex-namorado da minha coroa, o Beto, fomos pescar na plataforma de Atlântida. A tarde começou linda e ensolarada, mas depois veio um temporal. Correndo da chuva, bati a cabeça no concreto da plataforma, e foi nível ficar tudo escuro e eu dar uma reiniciada. Mesmo assim pegamos alguns peixes, e quando chegamos em casa fomos lavar o carro pra tirar a areia.
Enquanto estávamos ali na limpeza, passou aquele carro branco com o logotipo da RBS, bem devagar, na frente de casa! Fiquei assustado na hora e começamos a confabular: “Seriam as naves extraterrestres chegando? Ou seria um novo causo caponense?” Naquela noite, no Jornal Nacional, descobrimos: a Câmara tinha aprovado, por 6 votos a 5, comprar um bafômetro pra testar os vereadores antes das sessões. O alvo era o nosso vizinho, que respondeu à altura: topava soprar, desde que fosse o último e lavassem o aparelho antes. Gente finíssima, por sinal.
As corujas que cancelaram o réveillon
Tu sabia que pra muita gente não teve virada de ano entre 2007 e 2008!? Sim, foi o verdadeiro ano que nunca acabou! Em torno de 500 mil pessoas esperavam os fogos na beira da praia, e a queima foi cancelada minutos antes da meia-noite, por causa de uma família de corujas-buraqueiras.
Esse eu vivi de longe. Bem de longe. Minha mãe trabalhava na Secretaria de Turismo e, justo nesse réveillon, a gente foi pra um sítio do meu tio no interior de Torres, sem internet, onde as notícias não corriam tão rápido assim. O litoral inteiro sabia das corujas, menos a gente. No outro dia o telefone dela começou a tocar pra falar do caso. Tempos depois as corujas viraram até escola de samba (tinha desfile no centro e tudo). Em 2010 a prefeitura prometeu uma estátua de coruja de 10 metros na Beira-Mar e mais 12 réplicas espalhadas pela cidade. Alguém viu? Pois é. Hoje em dia ninguém mais fala nelas.
O tsunami que fechou as escolas
Sexta-feira, 11 de março de 2011, o dia do tsunami no Japão. Eu estava trabalhando na HP quando o MSN começou a piscar com uma mensagem da minha irmã. A Mel (na época grávida do meu sobrinho Bernardo) me contou que o pessoal em Capão estava em pânico: um tsunami estava chegando. Na mesma hora fui atrás. G1, ClicRBS, Correio do Povo: nenhuma matéria, nada que confirmasse. Mas pelo jeito que ela falava, o mar já devia estar recuando.
Passou o dia. À noite eu tinha uma palestra com o Felipe Kellermann na Ulbra de Torres, e quando cheguei o meu amigo Eduardo Isaia Filho avisou: “Olha só, tivemos um imprevisto porque o pessoal de Capão não vai vir hoje, pois o prefeito decretou alerta de tsunami”.
Só um detalhe geográfico: o Japão fica a 19 mil quilômetros daqui, e o alerta era pra costa do Pacífico. Capão fica no Atlântico. A cereja do bolo veio no outro dia de manhã, quando ainda era comum ler jornal impresso, e eu abri a Zero Hora:

Com direito à frase do prefeito: “Achamos melhor suspender as aulas. A gente, aqui no Litoral, está sempre com medo de alguma coisa.”
O asfalto que foi além
Penúltimo dia de 2016, cidade lotada pro réveillon, e chega no grupo do WhatsApp a notícia de um trilho de asfalto no meio da areia, saindo da orla, na Guarani, até a beira do mar. Na hora veio a frase: “isso aqui não pode ser verdade”. E era. Sim, Capão da Canoa foi a primeira cidade do mundo a ASFALTAR A PRAIA para acesso de um cadeirante! E não me vem com essa história que em Barcelona existem cadeiras de rodas acessíveis para as PCDs acessarem a praia. Aqui é raiz. É feito com asfalto.
Mas o melhor veio depois. O Batalhão Ambiental da Brigada apareceu, lembrou que qualquer coisa na faixa de areia precisa de licença, e o secretário de Obras saiu de lá assinando termo por crime ambiental. A prefeitura, claro, soltou nota dizendo que não mandou fazer nada. Tinha sido “um equívoco de algum funcionário”: uma moça cadeirante pediu um acesso até a praia, e ele “atendeu ao pedido e foi além”. Foi além! Bah, foi além com caminhão de asfalto! Logo depois o trilho já tinha sido arrancado da areia.
A cidade que fechou as portas
Lembra do prefeito que fechou as escolas por causa do tsunami? Aquele do “aqui no litoral a gente tá sempre com medo de alguma coisa”? Pois bem, em 2020 ele voltou com uma novidade. COVID. O mundo vai acabar, e se for acabar, que deixem a nossa cidade longe disso! Foi assim que ele DECRETOU O FECHAMENTO DAS ENTRADAS DA CIDADE: 10 dos 13 acessos bloqueados, e só passava morador ou quem tinha imóvel em Capão. Algumas toneladas de areia e pronto, o vírus que se virasse. E pra fechar com chave de ouro: em algumas avenidas, só a pista de entrada foi fechada. A de saída ficou aberta. Ou seja, sair de Capão podia. O vírus é que não podia entrar.
E tu, tem algum causo?
O tempo me provou que o próximo causo caponense é sempre o melhor. Qual vai ser? Vai ver é o capeta voltando pro Otto Birlem e a prefeitura fechando as ruas em volta pra ele nunca mais sair. Eu não sou religioso (nem acredito no capeta), mas que seria engraçado, ah seria! Se tu lembrar de alguma coisa que eu tenha esquecido por aqui, me conta! Se chegar causo suficiente, tem parte 2.
Salve!