A época em que jogar era uma expedição
Na sexta à noite, a preparação já começava. Separar os cabos, enrolar com cuidado para não embaraçar, checar se o mousepad estava na mochila, lembrar do headset. Havia uma checklist não escrita que todo mundo seguia de cabeça. Esquecer o cabo de força era o tipo de coisa que arruinava um sábado inteiro.
O deslocamento era parte da experiência. Gabinete no colo no banco de trás do meu Fusca. Monitor ao lado é claro, mas com a tela encostada no banco para não arranhar. Poucos tinham carro, então era o festival de recrutar pai, tio ou amigo que tivesse um. Quem não tinha fazia funcionar do mesmo jeito. Chegávamos suados, com os dedos marcados pelo peso do material, e ainda assim animados. A lan house era o destino, e o destino valia o esforço.
Montar tudo no lugar era um ritual próprio. Plugar o monitor, o teclado, o mouse e o fone de ouvido. Ligar e torcer. Se o Windows subisse sem reclamar, era sinal de que o dia ia ser bom. Se aparecesse tela azul antes de abrir o Counter-Strike, você passava os primeiros vinte minutos resolvendo problema de driver enquanto os outros já estavam em partida. E ainda tinha o “DHCP” próprio: “FULANO, QUAL O IP QUE EU DEVO USAR E QUAL A MÁSCARA DA SUB-REDE?”.
O jogo em si, curiosamente, é o que menos lembro. Lembro do cara do lado gritando quando levou uma granada no último round, da risada coletiva quando alguém caiu num emboscada clássica, da discussão séria sobre qual configuração de sensibilidade era a certa. A lan house era um lugar social disfarçado de lugar de jogo. O pretexto era o Counter-Strike. O motivo de verdade era estar junto numa sala barulhenta e mal iluminada, dividindo um hub com dez máquinas.
Hoje eu tenho fibra em casa, headset com microfone, jogo sem instalar nada. É tudo mais fácil, mais rápido, mais confortável. E é exatamente por isso que não vai deixar a mesma memória. A facilidade eliminou a fricção. E a fricção era onde estava tudo: a antecipação da véspera, o esforço do deslocamento, a satisfação quando tudo funcionava. Ninguém vai lembrar, daqui a vinte anos, da partida que jogou sozinho no quarto numa quinta-feira.
A lan house ensinava uma coisa sem querer: que o esforço para estar junto transforma qualquer programa ordinário em algo que vale a pena lembrar.
Salve!